Uma vida oferecida de livre vontade e por amor

Tempera su tavola  - Maestà, Siena
DUCCIO DI BONINSEGNA, Lava-pés - 1310 ca.
Quinta feira Santa
Duas acções diversas, duas representações sacramentais, dois sinais que falam da mesma realidade: Jesús dá a sua vida de livre vontade e por amor, é conduzido à morte fazendo-se escravo

Com o entardecer de quinta feira santa tem início o tríduo Pascal, aqueles dias "santos", distintos dos outros em que nós, cristãos, meditamos, celebramos, revivemos o mistério central da nossa fé: Jesús entra na sua paixão, conhece a morte a sepultura e ao terceiro dia é ressuscitado pelo pai na força que é o Espírito Santo. Mas o acontecimento da Paixão deve-se a um acaso ou a um destino de que Jesús estava incumbido? Porque é que Jesús conheceu uma condenação, a tortura e a morte violenta? São questões a que devemos responder se quisermos conhecer em profundidade o sentido da paixão. Mas são os próprios Evangelhos que nos dão estas respostas testemunhando os eventos daqueles dias pascais do ano 30 da nossa Era. Jesús para mostrar aos discípulos que entrava na Paixão assumindo-a como um acto não forçado, nem mesmo pela casualidade dos acontecimentos que lhe eram desfavoráveis, antecipa com um gesto simbólico aquilo que lhe está para suceder revelando assim o significado. Em liberdade, Jesús aceita o fim que se vai desenhando: podia ter fugido, poderia ter evitado aquele teste, pediu mesmo ao Pai que, se fosse possível, o afastasse daquele acontecimento trágico, mas se Ele queria viver em justiça, se queria colocar-se do lado dos justos que, num mundo injusto, são sempre desprezados e presseguidos, se queria continuar solidário com as vítimas, com os cordeiros da história, então devia aceitar aquela condenação e aquela morte até ao fim. Aceitou-a em liberdade para que fosse feita a vontade do Pai: não que o Pai quisesse a sua morte, mas a vontade do Pai pedia que Jesús permanecesse na justiça, na caridade, na solidariedade com as vítimas.  


Mas esta liberdade de Jesús era nutrida e acompanhada também pelo amor: amor pelo Pai, mas também pela verdade e pela justiça; amor pelos Homens. Para que fosse claro que dava a sua vida livremente e por amor - não forçado pelo destino nem por circunstâncias furtuitas - Jesús antecipa com um sinal, o que está para acontecer. À mesa, com os seus discípulos, Jesús executa gestos acompanhados por palavras: o seu corpo é partido e oferecido por todos os Homens, o seu sangue é vertido e dado por todos.  É o sinal definitivo da sua morte eminente, o sacramento de acção de graças, a Eucaristia que os cristãos devem celebrar em sua memória para serem também eles envolvidos naquele gesto de dádiva pelos irmãos e por todos os outros. No final daquele gesto Jesús diz: "Fazei isto em memória de mim!". Até ao seu regresso, por todo o tempo que os cristãos vivam no mundo, entre a morte-ressurreição de Jesús e a sua vinda na glória, é na celebração daquele gesto do seu Mestre e Senhor que os cristãos serão plasmados como discípulos, participarão na vida do próprio Cristo, saberão que Ele, o Senhor, está com Eles até ao fim da História.   


A quinta feira santa não pode senão celebrar este evento que antecipa a Paixão de Jesús, a narração do seu êxodo deste mundo para o Pai. Mas a Igreja, significativamente, na liturgia de Quinta feira Santa, à tarde, mais do que recordar e viver o gesto do seu Senhor como em cada Eucaristia, vive e repete também, um outro gesto de Jesús: o do lava-pés. No quarto Evangelho é recordada "a última ceia de Jesús com os seus", aquela ceia em que foi revelado o traidor, anunciada a negação de Pedro e a fuga de todos os outros discípulos; aquela ceia vivida por ocasião da última Páscoa de Jesús em Jerusalém, antes da sua morte. Contudo, antes de descrever o significado do gesto do pão e do vinho, João descreve o gesto do lava-pés. Porquê esta outra "acção"?! João conhece o episódio da Eucaristia, a Igreja desde há decénios que celebra este sacramento. Porquê, então, a memória desta outra acção? Podemos crer que a escolha feita, neste quarto Evangelho, seja motivada pela urgência vivida pela Igreja no fim do século I: a celebração eucarística não pode ser um ritual desconexo de uma prática coerente, de agape, de amor e serviço aos irmãos, uma vez que é este mesmo o seu significado: dar a vida pelos irmãos!

 

O evangelista quer assim ritualizar a mensagem da Eucaristia, recordando que ou ela é serviço recíproco, dom da vida pelo outro, amor até ao fim, ou então é apenas um ritual que pertence ao "quadro" deste mundo. Podemos dizer que a intenção de João é que o sacramento do altar seja lido e vivido sempre como o sacramento dos Irmãos. A celebração eucarística com o pão partido e o vinho oferecido e o serviço concreto, quotidiano ao Irmão evocam-se mútuamente, como as duas faces de participação no mistério Pascal de Cristo. O gesto de Jesús, contado lentamente, como que em "câmara lenta", para que fique bem impresso na mente dos discípulos de todos os tempos: Jesús tirou o manto, tomou uma toalha, atou-a à cintura, deitou a água na bacia, começou a lavar os pés, enxugou-os, colocou o manto.... são verbos de acção que acentuam a realidade, a plasticidade da cena. É um gesto que Jesús faz conscientemente: Jesús, o Kyrios, o Senhor, lava os pés aos discípulos. Gesto incomum, paradoxal, que inverte os papéis; gesto escandaloso, como testemunha a reacção de Pedro! Contudo, mesmo assim, Jesús cumpre-o, "anuncia" Deus na medida em que faz de Deus a "boa notícia" para todos nós.

Duas acções diversas, duas representações sacramentais, dois sinais que falam da mesma realidade: Jesús dá a sua vida de livre vontade e por amor, é conduzido à morte fazendo-se escravo. Por isso, como no gesto eucarístico, também no gesto de lava-pés, dá a seguinte indicação: "Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros." (Jo 13, 14). E a igreja, se deseja ser Igreja do Senhor, o mesmo deve fazer em obediência ao seu mandato: partir o pão, oferecer o vinho, lavar os pés na assembleia dos crentes e na história dos Homens.

ENZO BIANCHI
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